08/02/2010 Ano IV  
 
 
 

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Oliver Sachs e a maravilhosa obra do acaso...
De: Maicol Martins de López Coelho

imagem: Jackson Pollack

Oliver Sacks, interpretado por Robin Willians no filme “Tempo de Despertar”, tratou de pacientes pós-encefalíticos utilizando uma droga recém descoberta, em Mount Carmel, no final da década de 1960. Mount Carmel era um hospital para doentes crônicos, onde estavam confinados aproximadamente 80 pacientes pós-encefalíticos que teriam sobrevivido à grande epidemia de doença do sono (encefalite letárgica) que ocorreu após a I Guerra. Sacks esteve pela primeira vez em Mount Carmel em 1966 e, nessa época, os médicos consideravam que hospitais ou asilos para doentes crônicos eram lugares desinteressantes, onde breves visitas aos doentes confinados nestes hospitais eram mais do que suficientes.

Clinicar em Mount Carmel foi uma decisão autentica tomada por Sacks, a qual provavelmente contrastava com os interesses predominantes da comunidade médica na época. No livro "Tempo de despertar" (que forneceu material para o filme), o autor revela porque decidiu estudar a doença do sono: “O que me instigou na época foi o espetáculo de uma doença que nunca era a mesma em dois pacientes, uma doença que podia assumir qualquer forma possível — denominada corretamente fantasmagoria pelos que primeiro a estudaram”.

Em 1969, Sacks começou a ministrar a droga que teria permitido o despertar de seus pacientes e resultado numa experiência fascinante, reveladora de efeitos e comportamentos absolutamente inesperados. Na época, a L-dopa (levodihidroxifenilalanina), um medicamento desenvolvido para sanar a carência do neuro transmissor dopamina, era considerada uma droga experimental e a sua utilização estava condicionada a supervisão do FDA (Food and Drug Administration).

Inicialmente a aplicação da L-dopa ocorreu sob a forma de um experimento limitado a 90 dias, com a exigência de que os resultados fossem apresentados de forma quantitativa. Segundo Sacks, ficou evidente que o experimento a principio concebido de forma limitada não mais poderia ser conduzido da forma originalmente planejada. A droga significou um sopro de vida para aqueles pacientes que haviam permanecido adormecidos por tanto tempo, permitindo-lhes despertar e restabelecer a comunicação com o meio externo. Interromper o tratamento após noventa dias seria como retirar o próprio ar que respiravam. Depois, a aplicação do medicamento apresentava resultados imprevisíveis, os quais não podiam ser adequadamente descritos através de números, series e gráficos. As reações imprevisíveis à L-dopa observadas por Sacks não podiam ser descritas de modo convencional, utilizando relatórios e apresentações em forma quantitativa, já que ele utilizava a biografia dos pacientes, bem como o relato de casos contendo a descrição clinica pormenorizada dos efeitos da medicação. Relembrando esse fato, ele declara: “O relato de caso elaborado, o estilo romântico, com seu empenho em apresentar toda uma vida, as repercussões de uma doença em toda a sua riqueza perdeu muito de seu prestigio em meados deste século”. No livro “Maravilhosa Obra do Acaso”, Sachs fala da necessidade que percebe de uma ciência romântica, em que o impulso romântico e o científico possam caminhar e andar juntos. Como exemplos, cita Einstein e seu amor intelectual pelos fenômenos, e mesmo a obra de Darwin, em que ele deixa explícito o seu afeto pelos objetos de suas pesquisas (orquídeas). Em termos pessoais, relembra a guerra e a desconstrução do mundo seguro e ordenado que conhecia. Ele também mostra seu anseio por uma ordem que possa abarcar novas perguntas, novas formulações, distante do modelo mecanicista e aberta às possibilidades de absorver a inovação, a criação, o bizarro e o inesperado.

A experiência que Sacks teve com os seus pacientes foi critica para o desenvolvimento de uma nova visão sobre a medicina. A questão não se resume a uma elaboração conceitual: Sacks experimentou uma profunda empatia com seus pacientes e foi capaz de observar e reconhecer que os efeitos provocados pela dosagem da L-dopa eram complexos e imprevisíveis. “Às vezes, uma diferença infinitesimal nas condições iniciais de uma dose se amplificava e conduzia a alguma mudança enorme. Não se podia mais prever o que aconteceria, exatamente como não se pode prever o tempo, as condições climáticas”. Esse estar distante do equilíbrio era imprevisível, mas ao mesmo tempo muito rico. No livro “Maravilhosa Obra do Acaso”, por várias ocasiões, Sachs nos fala das certezas antes oferecidas pela ciência. Em várias outras ocasiões, faz uso da música, da literatura e da arte como maneiras não apenas de traduzir analogias, mas de recuperar algum sentido, ou plano maior, que possa explicar ou inserir em qualquer contexto o que não pode ser explicado “racionalmente” ou de forma “tradicional”. Sachs, ele mesmo, nos dá um indício de resposta. Ao comentar os resultados das suas experiências com L-Dopa, nos diz: “Olhando para o passado, penso que o que estava presenciando provavelmente tinha muito a ver com o que chamamos hoje de conceito de caos, de caos determinístico, sua auto-organização e a maneira como a natureza é, em si mesma, criativa e produz novas formas. Mas tais conceitos não estavam disponíveis nos anos 60.

A questão que podemos fazer é a seguinte: como o cientista pode lidar com a perplexidade resultante da percepção que sua ciência não é tão poderosa quanto ele imaginava ou gostaria? Abandonadas as expectativas de previsibilidade, controle e precisão e, assumidas as condições caóticas e indeterministas, o que resta ao cientista para a lide do dia-a-dia com os problemas com os quais tem que conviver e para os quais deve apresentar soluções? A maioria de nós recebeu uma formação acadêmica e científica onde a objetividade é condição sine qua non do bom trabalho. Aprendemos a nos manter “distantes” do objeto pesquisado, isolando todas e quaisquer variáveis que pudessem interferir na análise racional dos dados. No ofício de pesquisar, é a intuição que nos move, as “incertezas”, o amor por aquilo que escolhemos investigar. A ciência com a qual lidamos é incerta, imprecisa e distante dos modelos causais anteriores tão confortáveis. Como o cientista pode perceber desenvolvimento, se o progresso é impossível de ser vislumbrado? Como perceber movimento em alguma direção, se cada vez mais conhecemos o detalhe e nos perdemos no todo? Será possível que nós, historiadores da ciência ou cientistas, possamos ser como uma luneta (ou telescópio), relembrando as constelações do passado e sinalizando a capacidade do homem de sempre sobreviver à passagem do tempo? Será que, em função da nossa formação específica e da nossa capacidade de ver a ciência e os seus movimentos (recorrentes, circulares, pendulares ou caóticos) do ponto de vista de “fora”, não nos é facilitado justamente mediar a perplexidade de quem está por demais comprometido com o seu próprio tempo?

Sachs, em diversas ocasiões, nos revela a sua certeza quanto à inexistência da idéia de progresso. “Não há um progresso constante em direção ao alto, não há nenhum plano. Esta é uma visão da natureza que eu, com certeza, tenho também e, como neurologista e clínico, vejo-a em seres humanos”. Podemos reler, à luz do que Sachs nos fala, a introdução da obra “Naufrágios Sem Espectador”, do Prof. Paolo Rossi. Aqui, ele nos conta da sensação de absurdo que sente diante da perplexidade dos homens da ciência, tal como observado em algumas patologias da mente, ora entusiasmados pelas crenças progressistas ora imersos em angústias apocalípticas. Ele conclui que, ao estudarmos história, devemos adquirir essa humildade diante das redes e tessituras de diferentes formas de pensar, treinando-nos para compreender que o entendimento depende dos olhos e da posição no tempo. Ao salientarmos as anomalias, as disparidades e as recorrências, nós historiadores “embaralhamos as fábulas”, dando outras ordens e outras formas de construção para as correntes do conhecimento. Acreditando nisso, o  Professor Paolo Rossi dedica o livro ao seu neto, para que ele “sem crer no mito do progresso, possa sempre alimentar ‘razoáveis esperanças’ pelo seu próprio futuro e pelo das mulheres e homens do seu tempo”.

 

Maicol Martins de López Coelho
Publicitário, formado pela USP em Comunicação Social e mestre em História da Ciência pela PUC-SP, é também técnico em eletrônica e ex-estudante de engenharia de eletricidade. Atualmente trabalha na área em que é graduado; ainda em comunicação e marketing, é professor universitário, e é membro do Conselho Editorial da arScientia.
maicol@arscientia.com.br
São Paulo - SP

 

 

(Este texto é resultado de um trabalho conjunto do autor com Julio Bacha e Ivy Judensnaider Knijnik, e apresentado ao Programa de Estudos Pós-graduados em História da Ciência da PUC-SP. Está autorizada a reprodução, desde que a fonte seja mencionada e linkada).

 

 

 

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Comentários

Stela Sousa
Stelajose2007@hotmail.com
Precico comprar o filme"tempo de despertar" p/ levar a escola de enfermagem, onde encontrar?



silvia
silviaapires@gmail.com
olá.. Preciso assistir o filme tempo de despertar (trab facul -farmâcia) será que alguém pode me passar o resumo do filme. Grata ...Silviaapires@gmail.com



vera lucia c da silva
vera.silva@pucrs.br
olá, tenho q ler o livro tempo de despertar para um trabalho na faculdade de psicologia, ms não encontro em nenhuma biblioteca, infelizmente não tenho dinheiro para comprar, vcs podem me ajudar????



elenice
elenice_camelo@yahoo com.br
AMEI.



maelison
maelison@hotmail.com
Porventura estou fazendo um trabalho de psicologia cujo objeto de estudo é esse Filme. Achei a história fantástica e de uma riqueza temática muito grande. Os autores do artigo acima estão de parabéns pela bela exposição da temática!!



ivan
ivan.coelho32@hotmail.com
gostei, muito interessante e humano,porem muito educativo do ponto de vista médico.



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