03/09/2010 Ano IV  
 
 
 

......................................................................................

A AIDS vista de fora, a AIDS vista de dentro
De: Maicol Martins de López Coelho



A AIDS vista de fora, a AIDS vista de dentro
De: Maicol Martins de Lópes Coelho
01/12/2006


 

Final de 1982, início de 1983. O aumento do número de casos da ainda desconhecida AIDS, agressiva e mortal, a colocou na pauta dos meios de comunicação de massa no Brasil. Sem uma denominação exata, a AIDS teve alcunhas como peste rosa, doença misteriosa, mal de homossexuais, síndrome gay, câncer gay. Ainda que com um nome indefinido, ela foi associada a um grupo específico: os homossexuais eram a população vulnerável à nova doença e constituíam, assim, o grupo de risco, passível de contaminação. Heterossexuais casados foram então apresentados, se não diretamente, ao menos por exclusão, como uma parcela da população aparentemente pouco vulnerável à nova doença; em síntese, não havia a idéia do comportamento de risco, que apenas mais tarde substituiria a noção de “grupos” mais ou menos propensos à AIDS.

Estes conceitos, rapidamente apresentados, foram formulados por uma mídia que tinha como tarefa, então, a de intermediar as informações recém chegadas de hospitais e institutos de pesquisa. Ao manipular esses dados e eleger maneiras de apresentá-los, os meios de comunicação terminaram por moldar uma realidade que foi apreendida pela população; estudar este processo de percepção e formação de opinião, característico de estudos sobre comunicação e massa, não é o objetivo deste artigo. Aqui apenas serão comparados dois tipos de concepção sobre a doença: uma delas é a apresentada pela mídia de uma forma ampla, retratando a AIDS de maneiras diversas à medida que o tempo passa; e a outra concepção é aquela formulada por quem viveu a doença e formulou suas próprias idéias, diferentes daquelas divulgadas por meio de jornais e televisão, por exemplo.

A AIDS vista de fora

As primeiras notícias sobre o câncer gay, cujo alvo preferencial eram homossexuais, foram seguidas por notícias genéricas sobre a consolidação da doença, conforme apresenta o trabalho do professor Antônio Fausto Neto (referência bibliográfica abaixo). Desta forma, a necessidade de caracterizar a nova doença deu lugar à territorialidade, à ênfase sobre sua expansão. Uma manchete da Folha de S. Paulo em 1984 era, por exemplo, “Trinta casos de AIDS em cada semestre”; Já o jornal A Tarde, de Salvador, noticiou que a “AIDS mata uma mulher na Inglaterra”; e o Correio Braziliense estampou que “AIDS chega às aldeias indígenas” e “Todos os dias seis mil pessoas pegam AIDS” – todas as manchetes são de 1983.

Após esse período, as manchetes passaram a estampar a territorialidade da doença, enfatizando os locais em que ela era detectada, como “AIDS mata 2 em Ribeirão Preto”, da Folha,  e “AIDS já matou 10 em SP”, de A Tarde, ambas veiculadas em 1985. É possível observar que, durante os três primeiros anos da análise (83-85), os jornais escolheram manchetes que quantificavam o número de vítimas, exprimiam o crescimento da doença e a localizavam geograficamente.

Com o passar do tempo, as notícias voltaram-se a generalizar a doença, como em “AIDS sobe até o palco”, de O Globo (87), ou “AIDS chega às telas”, do mesmo jornal, em 1989. Manchetes como “Morre o primeiro ianomâmi com AIDS”, da Folha em 89, e “”AIDS pára o tempo de Cazuza” de O Globo, em 1990, entre outras, mostravam que a AIDS estava se disseminando em vários territórios e grupos sociais. De doença que se manifestava nos grupos de risco, entre sujeitos com um estilo de vida “transgressor”, a AIDS teve sua concepção reformulada para uma doença capaz de atingir pessoas de uma camada e grupo social diferente daqueles apontados inicialmente como os mais vulneráveis. A possibilidade de contágio agora atingia a todos,  e era necessária a prevenção.

A AIDS vista de dentro

A percepção que os próprios aidéticos têm de sua situação é, sem surpresa, diversa da apresentada pela mídia. Em pesquisa realizada junto a pacientes aidéticos no Instituto de Infectologia Emílio Ribas, em São Paulo, a psicóloga clínica Juliana dos Santos Ruiz abordou as representações – jargão da psicologia – que os pacientes traçavam frente a sua situação. O trabalho foi realizado a partir de 1996; convém destacar que os pacientes analisados haviam tido acesso, antes da contaminação, a informações sobre a doença e sobre formas de prevenção.

Ainda que cientes dos riscos, muitos pacientes os desconsideraram, para depois se questionarem, com frases do tipo “por que eu?”, ou “nunca pensei que isso pudesse acontecer comigo”. Mas há pessoas que vão além desta postura, não se limitando a desconsiderar os riscos: elas os negam, desafiam e procuram expor-se a situações de potencial contágio. A prevenção deixa de ser realizada não por descuido, mas voluntariamente, como se o indivíduo “procurasse” a doença.

A morte também acompanha a doença. O indivíduo contaminado passa a conviver com diversos tipos de morte, desde a física (ainda que o coquetel de medicamentos possa tornar a doença, de certa forma, crônica) até outras formas de morte, como a civil, originada pela ignorância e discriminação em relação aos aidéticos e soropositvos – uma espécie de morte em vida. Há ainda “mortes” relacionadas às limitações físicas, ocasionadas pelo desenvolvimento da doença, e também às perdas psíquicas, às perdas de vínculos afetivos em virtude da presença do vírus.

Há um primeiro choque, quando o indivíduo se descobre portador do vírus, e outro, grande, quando a doença se manifesta pela primeira vez. Os pacientes que manifestam a doença por vezes isolam-se e a negam, para depois se surpreenderem quando encontram, por parte de terceiros, alguma manifestação de apoio. Há ainda casos em que, ao tomar conhecimento do resultado positivo, o paciente passa deliberadamente a contaminar outras pessoas, numa reação destrutiva à presença do vírus. Em outros momentos, os pacientes tendem também a encobrir a sexualidade que os teria levado a contrair a doença.

Foram apresentadas neste artigo, rapidamente, dois estudos sobre a apresentação e percepção da AIDS. Para um maior aprofundamento sobre a relação entre mídia, público e a AIDS, fica indicado o livro Estudo sobre a AIDS, de autoria de Antônio Fausto Neto. Para uma maior densidade e maior aprofundamento da percepção da AIDs por parte dos pacientes, fica indicada a excelente dissertação de mestrado em psicologia clínica de Juliana dos Santos Ruiz, pela PUC-SP, intitulada A AIDS e suas representações: possibilidades de elaboração.

Maicol Martins de López Coelho
Publicitário, formado pela USP em Comunicação Social e mestre em História da Ciência pela PUC-SP, é também técnico em eletrônica e ex-estudante de engenharia de eletricidade. Atualmente trabalha na área em que é graduado; ainda em comunicação e marketing, é professor universitário, e é membro do Conselho Editorial da arScientia.
lcoelho@uol.com.br
São Paulo - SP

 

(Está autorizada a reprodução deste texto. Solicita-se que a fonte seja mencionada e linkada).

 

 

Do(a) Colaborador(a)

Revolução Científica: o palco e os atores
Oliver Sachs e a maravilhosa obra do acaso...
Visões do Brasil: Desigualdades Sociais e Miscigenação
Os gêneros do sexo único
A divulgação do discurso científico: um caminho
Civita Solis - a utopia da Cidade do Sol
As desigualdades e Rousseau
A AIDS vista de fora, a AIDS vista de dentro
Alguns aspectos de ciência, tecnologia e inovação no Brasil
Há algo por trás do título das Meditações Metafísicas
 
Outras Materias

De Elizabeth Nielson - A problemática do trabalho doméstico infantil
Comida Made in Brasil: será?
E por falar em armas...
Visões do Brasil: Desigualdades Sociais e Miscigenação
Para ser feliz é preciso mais que inteligência.
Algumas considerações sobre os 25 Anos de Aids
ABIA: Patentes farmacêuticas, acesso e produção nacional de ARVs
Carnaval é Arte?
A AIDS vista de fora, a AIDS vista de dentro
Entre a cidade real e a cidade ideal
 

......................................................................................
Comentários

marli
marlicont@yahoo.com.br
o artigo é maravilhoso, gostei muito do modo em que o assunto foi abordado e descrito. até mesmo pelo fator de que, o que me levou a procurar este artigo foi um trabalho solicitado no colégio na disciplina de comunicação gerencial, à qual nos pediu uma leitura do livro " a corrente da vida" de walcyr carrasco, ilustre obra!!!posteriormente necessitei uma pesquisa sobre o assunto que englobasse o meio social e seu comportamente perante os portadores do hiv, este artigo foi essencial para a confecção de meu trabalho. até quero resaltar que deixei bem claro e explicito em meu trabalho a fonte de pesquisa e o autor... muito obrigada!!! a humanidade agradece por trabalhos como os seus...








Nome:

E-mail:

Texto:

 

1º Análise de Da Vinci, segundo referências psicanalíticas
2º Educação ambiental... para quê?
3º Efeito estufa e aquecimento global
4º A Escolástica
5º De Leituras e Antropofagia
6º Experimentando as Letras Hebraicas
7º Uma leitura de Leonardo da Vinci
8º sob o arco-íris
9º O Calendário Judaico
10º Ano Internacional da Física e a Historia da Ciência

SBPC - Soc. Bras. Progresso Ciência


Conselho Nac Desenvolv. Científico e Tecnológico


Plataforma Lattes