O Banquete do Amor em Tempos de Aids
De: Roseli Gimenes
O Banquete do Amor em Tempos de Aids Roseli Gimenes 01/12/2006
Quisera homenagear, se por outro motivo não fosse, alguns artistas que pereceram em decorrência da Aids. São vários, bem o sabemos. Busco, então, um grande poeta e muito mais que isso, um grande amigo: Ademar Ferreira. Ademar morreu em 1989. De Aids. Talvez. Talvez porque eram tempos ainda de obscuro sentimento em relação a tudo isso. A família dele jamais quis falar sobre o assunto. Ademar era casado e tinha um filho. Eram tempos de associação da Aids com a homossexualidade. Não vou falar de homossexualidade. Falarei de sexualidade. Falarei de amor. Da morte por amor.
Se se tratava de entrave a questão da sexualidade na década de 80, será que isso perdeu relação com a Aids nas décadas seguintes, no século já então XXI? Alguma coisa mudou? Sim, há medicamentos poderosos para frear a doença. Não, continuamos a sentir preconceito em relação à doença. Hipocrisia à parte, ainda associamos Aids à homossexualidade.
E Ademar Ferreira esteve sempre com a ânsia e a fome do amor. Ao banquete do amor ele está, passados anos, ele está presente.
Início minhas reflexões com um poema de Ademar:
Ilícito
Ilícito Dizer que te amo? Assim os pilares do tempo: O homem E sua mulher O homem E seus filhos O homem e a sua essência: De ser um macho entre as fêmeas
Ilícito Eu me entregar a ti Com meu amor de rapaz-amante? Como definir esse gosto de ser: Um homem nos teus braços de homem, Um amigo no teu peito de amigo (saber que me amas tanto Soa às vezes como loucura De amor impossível!)
Ilícito Os nossos sexos tão puros E tão iguais
Ilícito, amor, As nossas bocas e o nosso Corpo Ardente? Onde o ilícito Se é tão doce a verdade: Que eu te amo E tu me amas E se somos assim Felizes E completos? (in : Inéditos)
Vê-se no poema o drama do preconceito que sempre acompanha o amor homossexual. Quase vinte anos mais tarde. Mudou muita coisa. Será? No poema, algum traço da Aids? Nada. Já eram tempos de Aids, mas o poeta sente tão somente a dor social e trabalha a possibilidade (ou a impossibilidade) da saúde. Da peste-horrorosa, expressão do, então, século XX. E continuo a falar de amor. De poetas.
A literatura mais próxima, porém, já esqueceu o preconceito do amor entre homens (ou mulheres). Já se pode divisar nos textos um algo de poesia, digamos homossexual, e com traços da morte que a acompanha. Há muito a poesia tem traços homossexuais; não, porém, com a visão espectral da morte inevitável.
A imprensa, de maneira mais intensa, porque é veloz, mostrava já nos anos 1995, em A Folha de São Paulo/Caderno Mais, poemas de vários autores que marcam seu texto pela letra significante homossexual.
Como exemplo, podemos citar o poeta Thom Gunn – inglês – cuja atividade poética remonta aos anos 50, mas que vê seu mais recente trabalho The Man with night sweats (O homem com suores noturnos), de 1992, ter um reconhecimento estrondoso. De repente, a fama do seu verbo. Sinal dos tempos. Tempos de Aids.
Aliás, percebe-se a proximidade do título da citada matéria da Folha: O amor nos tempos de Aids, com o destas páginas. Outro sinal dos tempos.
Vejamos um poema de Gunn:
Em tempos de peste
Meus pensamentos estão lotados de morte E com uma atração tão estranha pelo sexo Que estou perplexo Perplexo por estar atraído, Com efeito, por meu próprio aniquilamento. Quem são esses dois, esses homens tão ameaçadoramente atraentes Que desejam enfiar suas agulhas em meu braço? Eles dizem que se chamam John e Brad, Um daqui mesmo, o outro de Denver, sentados iguais No mesmo banco enquanto conversam comigo, Pernas abertas, olhos atentos. Adoro sua audácia, sua gíria, seus jeitos, E o que eles têm em mente.
Suas mentes são a da morte. Eles sabem, e não sabem, E nisso são assim como eu (Eu sei, eles não sabem) Feito o fluxo da gente neste bar. Heroicamente juntos, John e Brad matam sua sede De euforia – de um estado de vida mais ardente Em que a gente pudesse relaxar E perder nossas diferenças. Procuro Penetrar em suas mentes: serei um louco, E eles corretos e caretas, apropriadamente Se testando contra riscos, Como os humanos devem, e fazem, Ou serão eles loucos, também, suas faces ligadas Meras mortes glamourosamente iluminadas? Peso as possibilidades Até ficar com medo da força Da minha saúde E da evidente saúde deles. São impacientes pelo menos com minha dúvida E então, primeiro um, depois o outro, Eles se afastam dentro do tráfego flutuante de pessoas Agitado e brilhante, Trazendo nas faces e pelo corpo todo Notícias da vida e da morte
(Tradução de Rodrigo Garcia Lopes)
Limitando-se a detalhes, o poeta pouco fala de homossexualismo, mas a presença sombria dessa morte leva nossos olhares à figura desse homem desolado cuja saúde parece querer suprir tudo. Sugar saúde a outrem.
O fato é que, pode-se repetir com ênfase, os temas homossexuais são tão antigos quanto os próprios homens. A poesia, o amor, a vida, a morte – todos – desde sempre estiveram juntos. Que sexo, e aqui abro um parênteses, quando atinge o gozo, supera o desejo e é sempre mortal. Daí poder dizer que o sexo é o mesmo que observar Psiquê desvendando o rosto de Eros. Um deslize pode ser mortal. Afrontar Afrodite pode levar a Tânatos.
E tão antiga quanto sempre é a fome do amor. Esse comer, comer como em A festa de Babete ou como em Como água para chocolate...O amor tem vários aromas e sabores. Nuances infinitas.
E infinitas as nuances do amor que se pode obter em Um Banquete. Não um banquete qualquer, mas aquele que sacia a fome de ouvir falar de amor. E para este particular banquete trazemos a filosofia de Sócrates, por voz do discípulo Platão. O mestre da antigüidade grega sentar-se-á a este discurso para dialogar conosco esta fome de amor espremida nestes novos tempos. Tempos de Aids.
Essa obra de Platão, um diálogo, tem por princípio – entre outras de suas obras - o falar do amor. Assim, seus personagens, alguns escolhidos, reúnem-se em um banquete (na verdade, um simpósio) para comemorar a glória do poeta Agatão. Acordam um louvor ao deus do Amor.
Os presentes estrategicamente colocados em cena de maneira elíptica (não circular, portanto). Curioso lembrar a elipse, essa ausência do que se faz presente...Seguindo o costume grego da época, eles deitam-se. Divãs analíticos, diria a psicanalista lacaniana Catalina Pagés que analisa a questão da transferência que se dá entre Sócrates e seus interlocutores, principalmente Alcibíades. Catalina faz uma leitura do trabalho elaborado pelo psicanalista Jacques Lacan. Lacan vê Sócrates no lugar de analista que ensina a seus discípulos uma verdade que se furta (a elipse) à consciência deles. Assim, o agalma – o liame - era definido como objeto do desejo, como um falta a ser. Por isso, Lacan diz: "O amor é dar o que não se tem a alguém que não o quer". Transformado em psicanalista freudiano, Sócrates não escolhe a temperança por amor à filosofia, mas porque detém o poder de explicar a Alcibíades que o verdadeiro objeto de seu desejo não é ele, Sócrates, mas Agatão. Tal é o amor de transferência: ele é feito do mesmo tecido que o amor comum, mas é o artifício, já que se volta inconscientemente para um objeto que reflete outro.
Alcibíades crê desejar Sócrates, quando deseja Agatão. Essas considerações lacanianas são feitas por Elisabeth (ROUDINESCO, 1994:261,262).
Eis o poema do amor de temática homossexual, não? Sim e não, uma vez que na Antigüidade Grega, a pederastia - a relação entre o homem mais velho (erastes) e o rapaz jovem (erônimo) era aprovada, incentivada e tomada como modelo de ética amorosa. Mas pederastia – para os gregos – não se confunde com o que entendemos por homossexualismo. A "homossexualidade" (entre aspas) grega impedia contatos físicos entre homens adultos, coito anal e manifestações apaixonadas dos parceiros (dizem os livros). Tratava-se de uma homossexualidade intelectual, política, artística, guerreira e religiosa de uma sociedade culturalmente sofisticada, como bem o explica o psicanalista Jurandir Freire no comentário sobre o livro Homossexualidade na Grécia Antiga, de Dover, feito no caderno Livros, da Folha de São Paulo, de 01/05/1994.
Daí, especificamente, os personagens desse banquete serem tão somente homens. E eles falam cada um sobre o Amor. Assim:
Fedro diz que o amor é o deus mais antigo, quem ama está sempre pronto a morrer pelo outro e os deuses honram a coragem vinda do amor. O amante, claro, é mais divinal que o amado.
Pausânias diz que não há um só amor. Há, sim, duas Afrodite. Urânia, a mais velha. Vulgar, a mais nova. Afrodite Vulgar é o amor dos homens ordinários, os que tomam apenas o corpo e amam homens e mulheres. Urânia é o amor masculino, da força e da inteligência. Aquele da pederastia, do mestre e de seu discípulo.
Erixímaco, por ser médico, dá o depoimento que norteia o amor enquanto saudável. Diz que há o amor sadio (decoroso) e o doentio (moléstia –indecoroso). Deve-se desfrutar o prazer sem prejuízo à saúde. Segundo ele, se há exagero, vêm as pestes. (Quanta gente já disse que a Aids era a peste do século XX?)
Aristófanes (autor do teatro grego) faz uma retrospectiva da origem do amor. Diz que no início três eram os sexos: masculino, feminino e andrógino. Daí a famosa procura dos seres por suas metades perdidas e que foram separadas: homens mulherengos, mulheres adúlteras e os andróginos que geraram as lésbicas e os pederastas.
Agatão diz que o amor é o mais feliz, mais belo e melhor de todos os deuses. È o mais jovem também e tem aversão à velhice. Mora na alma dos deuses e habita a alma dos delicados. É virtuoso, hábil e poeta (como o próprio Agatão). Ah, Caetano: "...é que Narciso acha feio..."
Sócrates sintetiza dizendo que o Amor é o desejo do que falta (a elipse, a fala de Lacan: ‘Dar o que não se tem a quem não o quer’). Embora as mulheres não tenham participação nesse banquete, a fala de Sócrates baseia-se em Diotima, a figura de uma mulher mítica: o próprio agalma de que já falei, um objeto que representa a Idéia de Bem. Sócrates bem o diz: Todo aquele que nutre desejo, deseja o que não está ao alcance, o que não está presente. Se o Amor é o desejo do que falta, ele carece de coisas belas e boas, contrariando a idéia de Agatão. São as lições de Diotima: o amor não é bom, nem belo. Nem mau, nem feio. Por isso ele está entre um ser divino e mortal. Nem deus, nem mortal. Tudo se dá pela origem do próprio amor. Ele é filho de Engenho (filho de Astúcia) e de Penúria (aquela que chega sempre ao fim de um banquete à procura de restos, para mendigar. Alcibíades chegará ao fim desse banquete: mendigará pelo amor de Agatão). É fato que o amor busca o belo, o bom, o viril, a caçada, o feitiço, mas a todo o momento também é o falecer, o mendigar, o aturado, o miserável. Eis que o amor está entre o saber dos deuses e a ignorância dos mortais, daí viver a filosofar. Ainda, como um deus, gera frutos da alma. Como mortal, gera os filhos. Ambos à procura da imortalidade.
Alcibíades chega ao fim. Está bêbado. Louvará Sócrates, comparando-o a um sátiro que o encanta com sua flauta. Quer provar que Sócrates apenas quer ser amante, nunca o amado. Na verdade, quer prevenir Agatão em relação a Sócrates. Ao atacar Sócrates, mostra o ciúme por Agatão e a máscara se desfaz.
Findo o banquete, os personagens retornam a suas vidas. Deixam para sempre as lições sobre as várias verdades sobre o Amor.
Tantos séculos e o texto continua falando muito de perto a nós. O amor continua o mesmo. Os tempos é que são os da Aids: amores sadios ou doentios, amores penúrias de mulheres que se sujeitam à submissão do macho forte e à falta de cuidados a que se submetem.
E como não pensar nos poetas que traduzem o amor das almas? Como não lembrar os gritos roucos da arte?
O amor é por onde tudo se expressa. E essa doença da alma também continua a matar poetas. Cito Antonio Callado (Ilustrada Folha de São Paulo, 16/04/1994). Segundo ele, o mundo das artes era antigamente devastado pela tuberculose e o tédio. Agora é o tempo da Aids e do desespero.
Novos nomes para novos tempos? Parece que o monstro cantado em versos por Augusto dos Anjos está sempre a espreita "para roer os nossos olhos..."
E em tempos de Aids prevalece mais ainda o poeta da autobiografia e da militância. E torna-se difícil não fazer demagogia ou algo nada, diria, poético, artístico. Arte ou não, alguns depoimentos são o próprio exemplo do trágico monstro em que seu criador se torna. Vejamos um trecho da obra do escritor Dale Peck( HIV+) em Martin and John:
Correr o risco de pegar Aids
Detesto o momento vazio antes que a emoção se esclareça. Detesto sentar no sofá de Susan e ficar olhando para a saia dela, que me parece estranha, embora nada tenha mudado nela. Quando vem da cozinha, trazendo uma travessa de bolachas em volta de um monte marrom pastoso, ela diz “homus” e enfia o dedo na pasta pontilhada de verde.(...) Susan senta no sofá, olha para mim. Posso ver a curva dos seios dela pela abertura entre dois botões abertos da blusa. (...) Noto a luz difusa, o silêncio,o som súbito de uma música sem letra, e para dentro desse ar intoxicado deixo escapar minhas primeiras palavras da noite,"Susan", eu digo, "você vai ter que se arriscar a pegar Aids se quiser ficar grávida". Eu me pergunto então, enquanto as mãos dela escorregam para o peito dela, se ela desabotoou a blusa deliberadamente.
Leio nos jornais manchetes como a da Folha de São Paulo de 21 de novembro de 2006: "25 anos vivendo com HIV/Aids".
Na mesma Folha de 22 de novembro de 2006: "40 milhões com Aids".
Em O Estado de São Paulo de 22 de novembro de 2006: "Aids cresce entre mais velhos no Brasil".
Já o cinema do espanhol Almodóvar em Tudo sobre minha mãe mostrou o bebê que filho de um transexual não desenvolve o vírus.Vejo que o Brasil é considerado um modelo nas áreas de prevenção e tratamento. Mas em 25 anos a Aids já matou 25 milhões de pessoas! E como ficaria o casal do texto acima, de Peck?
Sou concorde a Carlos Heitor Cony que há já 11 anos na mesma Folha de São Paulo comentava, a respeito da disposição das proibições do fumo, que a advertência que se estampa nos cigarros deveria ser: "Viver é prejudicial à saúde".
É a frase que revela o quanto Eros e Tânatos se entrelaçam e o quanto a saúde está sendo privilegiada em tempos de Aids. Ter saúde é ter vida. Mas, "viver", como diria Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas: "... é perigoso. Carecer de ter muita coragem".
Como não lembrar do filme que marcou época em relação às denúncias sobre a Aids, Filadélfia, na cena em que o personagem interpretado pelo ator Tom Hanks ouve a ópera Andréa Chénier, de Giordano, interpretada por Maria Callas? É nesse momento que ele mostra ao espectador que vai morrer, sim. Mas vai morrer de amor.
Sejamos, no entanto, otimistas. Pelo menos no que se refere, então, ao Brasil, porque "... no relatório do UNAIDS, o Brasil é novamente citado como exemplo. Pela estabilização do número de casos, pelo aumento do uso de camisinhas e pela taxa de testagem de HIV- cerca de um terço da população já fez o exame." (Estado de São Paulo, 22/11/2006)
Se não for pelo dado do Unaids, que seja pela força da poesia:
"(...) Amor é primo da morte E da morte vencedor, Por mais que o matem (e matam) A cada instante de amor." (Carlos Drummond de Andrade. As sem-razões do amor. In: Corpo.)
Bibliografia
DANIEL, Herbert.PARKER,Richard. Aids.A terceira epidemia.Ensaio e tentativas.São Paulo.Editora Iglu.1991 LACAN, Jacques. A transferência. O seminário livro 8.Rio de Janeiro.Editora Zahar.1992 PLATÃO. Um Banquete. In: Diálogos. São Paulo.Editora Cultrix.s/d ROUDINESCO, Elisabeth. Jacques Lacan. Esboço de uma vida, história de um sistema de pensamento.São Paulo.Cia.das Letras.1994
Roseli Gimenes é coordenadora local do curso de Letras da UNIP e professora de Literatura Brasileira há 25 anos. É mestre e doutoranda em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP. Publicou recentemente a 2a. edição de sua obra: " A menina de Lacan: um conto Rosa", pela Editora Scortecci.
(Está autorizada a reprodução deste texto. Solicita-se que a fonte seja mencionada e linkada).
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