imagem: Himmler
A pseudociência de um notório Reichsfuhrer-SS
Erick Crisafuli
05/04/2007
Na letal mistura de poder, medo, crueldade e diletantismo, a pseudociência começou a florescer praticamente incontestada sob os auspícios da SS na Alemanha de Hitler.
Autodidata, não tendo conhecimento ou mesmo o básico da pesquisa científica, Heinrich Himmler (1900-1945) encontrou tempo para envolver-se em todo tipo de esquemas de pesquisa, começando no início do regime com falsos programas relacionados com as origens do arianismo e levando, no fim, às atividades criminosas da chamada “pesquisa médica” nos campos da morte. Embora tais atividades fossem marginais ao enorme volume de trabalhos científicos e tecnológicos do Reich como um todo, a direção de “pesquisas” patrocinadas pelas SS acabou por trazer sofrimento e morte apavorante às suas vítimas, e degradação a todos os ligados com sua realização e dados.
Nos dois anos após a subida de Hitler ao poder, Himmler desempenhou um papel no estabelecimento da AHNENERBE (Herança ancestral), uma sociedade de pesquisa que encorajou um amplo circuito de buscas pseudocientíficas. Ele se tornou seu curador, e por fim seu presidente. A AHNENERBE envolveu-se, sobretudo, com pesquisa Histórica e Antropológica destinada a descobrir as origens da superioridade ariana.
“Além de sua crônica paranóia e senso de mérito ferido, a Ahnenerbe retratava-se como desfazendo divisões entre ciências naturais e as artes, e encorajando um tipo de holismo. Seu instrumento era uma embrulhada de genética, geopolítica, filologia, antropologia, história e arqueologia, misturadas com astrologia, mitologia e ocultismo” (1)
A busca de provas das origens era incansável. Houve uma busca de uma década para recuperar um texto antigo da Germânia, de Tácito (2), de uma catacumba na Itália, pelo qual o próprio Hitler intercedeu sem sucesso junto a Mussolini em 1936, e que tropas das SS ainda procuravam em 1943.(3)
Tácito descreve a terra alemã como um incessante agreste, um vasto território virgem, de montanhas e florestas que emocionava os aficionados da Ahnenerbe, sobretudo, Richard Walther Daré (1895 -1953), responsável pelo epíteto Blut und Boden (sangue e solo), e que promovia entusiasticamente uma política nazista de Naturschutz (proteção da natureza). Outros viam referências à pureza racial nas histórias de Tácito de hinos míticos de louvou a Tuisto, uma divindade que surgira do solo alemão: “Fora ela quem dera à luz o primeiro homem alemão, e este gerara três filhos que se tornaram ancestrais do povo alemão.”(4) Sangue e solo eram assim inextricavelmente uma coisa só.
Himmler também estava convencido de que os líderes do Terceiro Reich descendiam dos Vikingues e planejou uma expedição à Islândia para provar isso. Mais remotamente, acreditava que as origens da raça ariana eram oriundas de brotos vivos conservados no espaço cósmico.(5)
Himmler também instituiu um programa de pesquisa dentro dos SD de Heydrich para estudar a perseguição às bruxas na Alemanha no século XVII. Estava ávido por demonstrar com documentos de julgamentos das “bruxas” que a perseguição fora na verdade um ataque combinado entre os judeus e a Igreja contra a “saudável germanidade”.
Como Hitler, Himmler preocupava-se com modismos de saúde. Era fanático sobre a proibição de ingredientes artificiais na comida, culpando as empresas comerciais de alimentos pela destruição da dieta natural do povo alemão.
Entre suas iniciativas de “especialista” em Higiene Racial e aspectos da Genética, mesmo com a guerra às portas, ordenou que membros das SS investigassem suas árvores genealógicas, remontando ao fim da Guerra dos Trinta Anos: se um judeu surgisse na respectiva árvore, a pessoa devia deixar as SS.
O trabalho da Ahnenerbe, apesar de todos os seus aspectos absurdos, iria assumir uma face cruel no curso da guerra, quando Himmler teve o alcance para combinar suas teorias racistas com “experiências” práticas realizadas nos campos de prisioneiros. As maiores vítimas: judeus e russos.
O fenômeno da pseudociência de Himmler revela a predominância, dentro da ciência patrocinada pelas SS, de amadorismo, diletantismo e, com o tempo, sadismo e assassinatos em massa.
“As tentativas de Himmler e de sua SS (o Estado dentro do Estado), de criar uma ciência especial para o nacional – socialismo, dedicada ao genocídeo, dão uma indicação do que poderia haver se tornado a ciência se Himmler sucedesse a Hitler como líder supremo da Alemanha.”(6)
notas bibliográficas:
(1) John Cornwell. Os cientistas de Hitler. p.172
(2) Historiador Romano (C.55 d.C – C.120 d.C). Autor de a Germania (e que trata da vida e da cultura dos povos germânicos).
(3) John Cornwell. opcit. p.173.
(4) Luiz A.P. Victoria. Dicionário da origem e evolução das palavras. p. 227.
(5) John Cornwell. opcit. p.174.
(6) Albert Speer. The slave state: Heinrich Himmler´s masterplan for SS supremacy. p. 80.
BIBLIOGRAFIA:
CORNWELL,J. Os cientistas de Hitler. Trad: Marcos Santarrita. Rio de Janeiro, Imago, 2003.
HEINRICH HIMMLER. Disponível em: www.wikipedia.org/wiki/himmler. Acesso: 20/02/2007.
LEACH,B. Estado maior alemão. Trad: Edmond Jorge. Rio de Janeiro, Renes,1975.
LEO,K. Nuremberg – Epílogo da tragédia. Trad: Edmond Jorge. Rio de Janeiro, Renes,1973.
SPEER,A. The slave state: Heinrich Himmler’s masterplan fos SS supremacy. Trad: J. Neugroschel. Londres, Penguin Books,1981.
TÁCITO. Disponível em: www.biografias.netsaber.com.br. Acesso: 21/02/2007.
VICTORIA,L.A.P. Dicionário da origem e evolução das palavras. 3ª edição. Rio de Janeiro, Editora Científica, 1963.
Erick Crisafuli
Especialista em matemática e estatística pela Universidade Federal de Lavras/MG. Mestre em História da Ciência Pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo com pesquisa em História da Estatística e da Matemática Atuarial, sendo orientado pelo Prof.Dr.Ubiratan D’Ambrosio. Faz parte do grupo de História da educação matemática e de Etnomatemática da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, tendo como responsável o Prof.Dr.Ubiratan D’Ambrósio.
e-mail: ecrisafuli@yahoo.com.br
Barbacena -MG
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