Roger Bacon: respostas ao passado
De: Ivy Judensnaider
Roger Bacon: respostas ao passado Ivy Judensnaider 05/04/2007
Para que possamos compreender a importância e o papel de Roger Bacon na História da Ciência (e cuidado para não confundí-lo com Francis Bacon, chanceler e filosófo inglês do século XVI), devemos entender o momento em que ele desenvolveu suas idéias: àquele tempo, a Europa, após um período de letargia iniciado com o declínio do Império Romano, entrava em contato com o pensamento e o conhecimento trazido pela civilização árabe, saber esse já aumentado e interpretado pelos pensadores muçulmanos. A estrutura feudal – baseada na propriedade rural, no trabalho agrícola e no predomínio da Igreja enquanto responsável tutelar das idéias e crenças da população – começava a apresentar rachaduras com os novos ares e atmosfera advindos das Cruzadas, movimento em busca de terras e expansão da fé cristã.
A obra de Roger Bacon se insere no quadro de transição do pensamento religioso e/ou vinculado aos clássicos e antigos, para o pensamento científico. Do segundo, tem a preocupação com o racional, com a explicação apoiada em fatos e experimentação (embora possamos questionar essa experimentação se a considerarmos a partir do modelo em que ela é entendida atualmente, já que não dispomos de investigação e estudos filológicos suficientes sobre a terminologia medieval utilizada para designar experiência e experimento), e com a reforma do saber através de sua melhora e “modernização”. Do primeiro, guarda o referencial aristotélico e a utilização da Bíblia como ponto de partida para todo o conhecimento. Segundo Helwing (2003), “não deveria haver outro filósofo medieval tão passível de mal entendidos quanto Roger Bacon. E não porque ele seja estranho demais para nós, mas sim porque sob muitos aspectos ele parece antecipar a modernidade, mesmo pertencendo a um mundo do passado.”
O trabalho de Roger Bacon (1214-1292, datas prováveis) pode ser dividido em duas fases. A primeira compreende sua obra de leitura, análise, questões e comentários sobre Aristóteles. A segunda, já como franciscano, abarca a maior parte da sua obra relacionada à ignorância, filosofia e teologia, línguas, matemática, ótica, ciência experimental e filosofia moral. É principalmente a partir dos estudos desse período que podemos vislumbrar o Bacon religioso, preocupado com a conversão dos infiéis e a repressão ao mal, o pensador que, apoiado pelo Papa Clemente IV, irá tentar a elaboração de uma enciclopédia do saber humano com o objetivo de melhorar a sociedade.
Para ele, os maiores obstáculos à obtenção da verdade eram a autoridade (frágil e indigna), os costumes, o pensamento do vulgo imperito e a ocultação da própria ignorância. Como medidas para vencer esses obstáculos, Bacon propunha o conhecimento apoiado na autoridade (juízo de Deus), na razão e na experiência.
O centro de seus escritos é a multiplicação das espécies por meio da transformação da energia. Através do uso dos princípios da ótica, Bacon vai procurar explicar o mundo e como se dão as relações entre os sentidos, matéria e agentes. Segundo Nascimento (1995), é o “pórtico de uma nova física, aristotélica nos quadros em que ela se inscreve, mas cujo instrumental de base é fornecido pelos físicos”. Embora possamos acrescentar algumas idéias discordantes sobre o quanto de aristotélico havia em seu trabalho – como será visto adiante – é inegável o uso da ótica como ponto de partida para as explicações teóricas sobre o mundo e as coisas. Afinal, se a ótica é o único domínio do saber onde o conhecimento está geometrizado, pode ser ela utilizada para fornecer as leis gerais de funcionamento da natureza, através da geometrização da física terrestre.
Para Bacon, o processo de transformação envolve algo que a produz (o agente, ou a causa eficiente) e algo que a sofre (o paciente, ou a matéria). Existem duas ações possíveis: a unívoca, que é geração (multiplicada, contínua ou a multiplicação da espécie) como, por exemplo, a luz produzindo luz. A outra, equívoca, quando a luz produz calor (ação de intensidade). A originalidade de Bacon está, segundo alguns historiadores, na generalização das leis da ótica pra o estudo de todas as transformações naturais. Nesse aspecto, ele se diferencia de Tomas de Aquino, para quem os metafísicos seriam responsáveis pelo estudo dos seres incorruptíveis e isentos de movimento, os matemáticos pelo estudo dos seres com movimento e incorruptíveis, e os estudiosos da natureza responsáveis pela investigação dos seres com movimento e corruptíveis. Para Bacon, tudo poderia ser geometrizado e explicado através do uso da matemática. Assim, a matemática utilizada através dos princípios da ótica poderia ser aplicada na investigação e compreensão de todos os seres, corruptíveis e incorruptíveis, com ou sem movimento.
Há bastante controvérsia sobre os motivos que explicam a importância de Roger Bacon. Na visão de alguns estudiosos, para compreendermos Bacon devemos olhar para trás, para as influências que recebeu. Para Lindberg (1982), “se julgarmos Bacon pelos critérios do século XX e imaginá-lo como um precursor da ciência moderna, estaremos falhando totalmente na percepção de sua verdadeira contribuição: Bacon não estava olhando para o futuro, mas respondendo ao passado”.
As diferenças entre Platão e Aristóteles, que haviam se mantido adormecidas até o início da Idade Média, retomam importância a partir do séc. XIII. Grosseteste, grande influência metodológica no trabalho de Bacon, vai utilizar intensamente a matemática para explicar os fatos, porém concordando com Aristóteles que os corpos materiais não poderiam se submeter a uma explicação matemática. Sua metafísica da Luz, englobando filosofia, metafísica, cosmogonia, física e epistemologia (a Luz explicando a criação do mundo e das relações, sendo a geometria o instrumento utilizado), terá notável influência no trabalho posterior de Bacon. No entanto, deve-se salientar que, embora não tenha reduzido a importância da filosofia natural, ele aumentou o raio das possibilidades de interpretação do mundo através da matemática. Segundo Alfonso-Goldfarb (2001), “Grosseteste valoriza o estudo das ciências naturais dedicando-se, particularmente, à óptica. Talvez influenciado pelo platonismo, sugere que os fenômenos de sombra e luz sejam interpretados a partir de sua decomposição em figuras geométricas”.
No entanto, existe uma parte do trabalho de Bacon da qual pouco se fala e que deve ser levada em consideração ao analisarmos a sua importância e a relevância da sua obra. Os trabalhos sobre alquimia haviam chegado às mãos dos europeus por meio do mundo árabe. Bacon tinha conhecimento a respeito do conteúdo dessas obras e por elas tinha uma profunda admiração. Se a Igreja não dava muita abertura para estudos filosóficos, havia ainda um campo a ser investigado, qual seja, a da ciência natural. Assim, não apenas Bacon reuniu e comentou o saber de sua época, como teve a oportunidade de experimentar, especialmente os receituários e tratados médicos e alquímicos. Para ele, a alquimia era uma ciência superior e era possível diferenciar entre a “alquimia operativa” (área na qual ele experimentou o “fazer” relacionado aos metais preciosos e tingimentos) e a “especulativa”, que tratava da geração das coisas do mundo. Para Alfonso-Goldfarb (2001), “em seus escritos dedicados à ”alquimia operativa”, Bacon introduz um relato de conhecimentos atualizados sobre novas substâncias e metalurgia, que, para ele, deveriam preceder à busca do “elixir” e da “transmutação”, até porque a justificariam ou a auxiliariam, incentivando as manipulações alquímicas”.
Assim sendo, se para alguns, o seu trabalho esboça algumas idéias que seriam retomadas depois pela física moderna (especialmente no que respeita às ondas e modulação), para outros, Bacon combinava magia e ciência, elaborando o que pode ser chamado de “magia científica”. Afinal, ele tinha interesse nos conhecimentos dos homens práticos, alquimistas e magos. Segundo Alfonso-Goldfarb (2001), “Bacon era, antes de qualquer coisa, um medieval ligado a um mundo de signos e símbolos, onde quase tudo era deduzido por analogia. A crença em certos fatos, que parecem quimeras absurdas ao homem moderno, era perfeitamente racional e assimilável dentro do esquema de pensamento mágico-teleológico do habitante do medievo”. Bacon se inspirava nas estórias contadas por viajantes, nos receituários alquímicos, nas lendas e magias das quais ouvia falar e as quais combatia, como homem da Igreja que era. Para Nascimento (1995), “o texto mostra bem a heterogeneidade das duas tradições intelectuais em que Bacon se funda: Aristóteles e Alhazen. Ele não dispõe ainda de um esquema capaz de aproximar e harmonizar estas duas tradições. Assim, as questões que dizem respeito à gênese e à maneira de ser da espécie permanecem, por um lado, ligadas à análise aristotélica; as questões concernentes à multiplicação da espécie, por outro lado, formam um outro bloco e dependem da ótica”.
Se investigarmos as múltiplas correntes desse período, das quais o pensamento de Roger Bacon é um exemplo, seremos capazes de identificar formas e alternativas de saber e visões de mundo que podem nos mostrar a conturbação e a riqueza da coexistência de maneiras de pensar que, hoje, nos parecem irreconciliáveis. Nesse sentido, Roger Bacon presta-se perfeitamente como exemplo dessa tessitura que confundiu modernidade e antiguidade.
Bibliografia:
Alfonso-Goldfarb, A. M. Da Alquimia à Química. São Paulo, Ed. Landy, 2001. Bacon, R. Opus Majus. Trechos traducidos por Carlos Arthur do Nascimento, 2003. Hedwig, Klaus – Roger Bacon, Scientia experimentalis, In: Theo Kobusch, Filósofos da Idade Média, uma introdução, Ed. Unisinos, 2003. Lindberg, D. C. On The Applicability of Mathematics To Nature: Roger Bacon and his Predecessors, in The British Journal for The History of Science, 15, 1982. Nascimento, C. A. R. do De Tomás de Aquino a Galileu. Campinas: UNICAMP – IFCH, Col. Trajetória, v. 2, 1995, 2ª. Ed., Cap. 2, 3 e 4, p. 89-151.
Ivy Judensnaider É economista e mestra em História da Ciência e Tecnologia pela PUC/SP. Trabalha como professora universitária e é escritora. Autora de Debora fala reservadamente com todos, lançado pela Editora Altana, SP, é colunista da revista eletrônica NovaE e editora-chefe de arScientia. editora@arscientia.com.br São Paulo - SP
(Está autorizada a reprodução deste texto. Solicita-se que a fonte seja mencionada e linkada)
|